Todas as obras de arte provém de uma mesma e única raiz. Logo, todas as artes são idênticas.
Mas o misterioso e precioso é que os frutos provenientes da mesma cepa são diferentes.
A diferença se manifesta pelos meios de cada arte singular – pelos meios da expressão.
Isso é bem simples num primeiro momento. A música se exprime pelo som, a pintura pela cor etc. Coisas geralmente sabidas.
Mas a diferença não pára aí. A música, por exemplo, organiza os seus meios (os sons) no tempo, e a pintura os seus (as cores) no plano. O tempo e o plano devem ser exatamente “medidos” – tais limites são a base da “balança” e, portanto, da composição.
Leis enigmáticas, mas precisas, da composição, destroem as diferenças, já que são as mesmas em todas as artes.
Gostaria de sublinhar de passagem que a diferença orgânica entre o tempo e o plano é geralmente exagerada. O compositor toma o ouvinte pela mão, o faz adentrar em sua obra musical, guia-o passo a passo, e o abandona tão logo o “trecho” termina. A exatidão é perfeita. Ela é imperfeita na pintura. Mas! ...O pintor não é desprovido desse poder de “guia” – pode, se quiser, forçar o espectador a começar por aqui, a seguir um caminho exato em sua obra pictórica, e a “sair” por ali. Trata-se de questões excessivamente complicadas, ainda muito pouco conhecidas e, sobretudo, pouco resolvidas.
Gostaria apenas de dizer que o parentesco entre a pintura e a música é evidente. Mas ele se manifesta de maneira ainda mais profunda. Você conhece, naturalmente, a questão das “associações” provocadas pelos meios de que se servem as diferentes artes. Alguns cientistas (sobretudo os físicos), e alguns artistas (sobretudo os músicos) perceberam há muito que, por exemplo, um som musical provoca a associação com uma cor específica. Em outras palavras, podemos ouvir as cores e também visualizar os sons.
Assim, o amarelo tem a propriedade especial de “subir” cada vez mais alto e atingir alturas insuportáveis para os olhos e o espírito – o som de um trompete tocado cada vez mais alto, tornando-se cada vez mais “pontiagudo”, dói no ouvido e no espírito. Já o azul, com seu poder totalmente oposto de “descer” nas profundezas infinitas, desenvolve os sons da flauta (isso quando o azul é claro), do violoncelo (“descendo”), do contrabaixo, com seus sons magníficos e profundos, e nas profundezas do órgão (teclados) “vemos” profundidades azuis. O verde bem balanceado corresponde aos sons médios e extensos do violino. Bem aplicado, o vermelho (vermelhão) pode dar a impressão de fortes toques de tambor.
As vibrações do ar (o som) e da luz (a cor) formam seguramente a base desse parentesco físico.
Mas esta não é a única base. Há ainda outra: a base psicológica. Problemas do “espírito”.
Você já ouviu expressões, ou já as aplicou pessoalmente, como “oh, que música fria!” ou “oh, que musica glacial!”? Você tem a impressão do ar glacial entrando por uma janela aberta no inverno; e todo seu corpo se sente desconfortável.
Mas uma hábil aplicação dos “tons” e dos “sons” “quentes” fornece ao pintor e ao compositor a magnífica possibilidade de criar obras calorosas. E ela te aquece diretamente também.